Braskem amplia portfólio de polietilenos de fonte renovável e leva materiais bio-based a aplicações de maior exigência técnica, incluindo embalagens para contato com alimentos
A evolução das embalagens de fonte renovável está entrando em uma nova etapa. O desafio já não é apenas substituir uma matéria-prima fóssil por uma alternativa renovável, mas desenvolver materiais capazes de atender aplicações cada vez mais específicas sem abrir mão de desempenho, processabilidade e segurança.
É nesse movimento que a Braskem vem ampliando seu portfólio I’m green™ bio-based. Em 2026, a empresa apresentou uma nova geração de polietileno de fonte renovável direcionada a aplicações de embalagens flexíveis para contato com alimentos. A solução foi destacada na interpack 2026 como um novo grade desenvolvido para combinar desempenho previsível com os benefícios de uma matéria-prima de origem renovável.
O avanço ganha relevância porque o contato direto com alimentos impõe requisitos específicos ao material utilizado na embalagem. Ao mesmo tempo, a indústria busca estruturas mais leves, eficientes e compatíveis com os sistemas de processamento já existentes.
Menos material, sem abrir mão do desempenho
No caso dos filmes flexíveis, a redução de espessura é uma das frentes mais importantes de desenvolvimento. Utilizar menos material pode contribuir para a redução da massa da embalagem, mas exige que propriedades como resistência, estabilidade e selabilidade sejam preservadas.
A proposta da nova geração de PE bio-based da Braskem é justamente atuar nesse espaço. Segundo a companhia, o novo grade para contato com alimentos foi desenvolvido para oferecer desempenho alto e previsível e funcionar como uma solução drop-in, ou seja, compatível com os processos existentes de transformação de plásticos.
O conceito drop-in é estratégico para a indústria. Em vez de exigir novos equipamentos ou uma mudança completa de processo, a resina renovável pode ser incorporada às estruturas produtivas existentes, reduzindo uma das barreiras à adoção de materiais de menor impacto ambiental.
O portfólio I’m green™ bio-based atualmente reúne cerca de 25 grades de PE nas famílias PEAD, PEBDL e PEBD, com conteúdo renovável entre 80% e 100%, segundo a Braskem. A empresa informa ainda que esses materiais podem ser encaminhados para as mesmas cadeias de reciclagem utilizadas pelo polietileno convencional.
O avanço do PE metalocênico
Outro movimento recente amplia ainda mais essa discussão.
Durante a Interplast 2026, realizada em agosto, em Joinville (SC), a Braskem apresentou o polietileno metalocênico I’m green™ bio-based como uma novidade do portfólio. Segundo a empresa, trata-se do primeiro PE metalocênico produzido a partir de matéria-prima renovável em uma cadeia segregada e rastreável. O material foi apresentado como alternativa para diferentes aplicações de embalagem, inclusive aquelas destinadas ao contato com alimentos.
A tecnologia metalocênica é relevante porque permite obter resinas com propriedades mais controladas, abrindo possibilidades para estruturas que exigem combinação de desempenho mecânico, processabilidade e qualidade óptica.
Na prática, isso amplia o campo de aplicação dos materiais renováveis: eles deixam de estar associados apenas a uma substituição de matéria-prima e passam a participar de projetos nos quais a engenharia do material é determinante para o resultado final da embalagem.
A embalagem flexível também olha para a estrutura
Outro caminho apresentado pela Braskem são os filmes MDO — Machine Direction Orientation — produzidos com matéria-prima renovável.
Nesse processo, o filme é orientado na direção da máquina para obter determinadas propriedades mecânicas e funcionais. A tecnologia pode ser utilizada na construção de estruturas predominantemente de polietileno, inclusive em aplicações como stand-up pouches, flow packs, alimentos secos e úmidos e refis.
A importância dessa abordagem está na possibilidade de combinar desempenho e desenho estrutural da embalagem. Em determinadas aplicações, estruturas de um único polímero ou predominantemente de uma mesma família de materiais podem facilitar o encaminhamento para reciclagem, dependendo da infraestrutura disponível e da configuração final da embalagem.
Assim, a discussão sobre sustentabilidade deixa de estar concentrada exclusivamente na origem da resina. Ela passa a envolver também espessura, estrutura, barreira, processamento e destino pós-consumo.
Da cana-de-açúcar ao contato com alimentos
O PE I’m green™ bio-based é produzido a partir de eteno obtido da cana-de-açúcar. A Braskem posiciona a solução como uma alternativa renovável ao polietileno convencional, mantendo as características de processamento necessárias às aplicações e permitindo sua utilização em diferentes formatos de embalagem.
Essa trajetória já chegou ao mercado de alimentos há alguns anos. Um exemplo é a utilização do plástico de fonte renovável em embalagens da linha de pães Nutrella, do Grupo Bimbo.
A novidade de 2026, portanto, não está em inaugurar o uso de PE renovável em alimentos. O movimento mais recente está na ampliação do desempenho e das possibilidades de aplicação, especialmente em filmes e materiais desenvolvidos para situações nas quais a embalagem precisa ser mais leve, tecnicamente precisa e adequada ao contato direto com o produto.
Uma nova equação para a embalagem
Para os convertedores e donos de marcas, a mudança é significativa. A escolha de uma resina renovável começa a ser analisada dentro de uma equação mais ampla: quanto material é necessário, qual desempenho a estrutura precisa entregar, como ela será processada, qual é sua funcionalidade durante a vida útil do produto e quais possibilidades existem para seu fim de vida.
A própria Braskem vem trabalhando com um portfólio que reúne soluções renováveis, recicladas e convencionais, em vez de tratar a sustentabilidade como uma única rota tecnológica.
No caso das embalagens flexíveis para alimentos, essa evolução é especialmente importante. O material precisa proteger o produto e manter suas características durante armazenamento, transporte e consumo. Ao mesmo tempo, precisa responder a uma indústria pressionada por redução de material, menor impacto ambiental e maior eficiência.
O próximo capítulo do plástico renovável, portanto, não parece estar apenas na troca do carbono fóssil pelo carbono renovável.
Está na capacidade de fazer mais com menos material — e sem pedir à embalagem que entregue menos desempenho.
