Quem visitou o pavilhão do São Paulo Expo nesta última edição da Brasil Brau sentiu no ar muito mais do que o aroma característico de lúpulo e mosto. Havia um claro clima de pragmatismo flutuando pelos estandes. Se em anos anteriores o mercado vivia o deslumbramento da expansão pura e simples, o tom agora é de eficiência cirúrgica. Caminhar pelos corredores do evento foi como testemunhar uma engrenagem em movimento, onde a sobrevivência do produtor depende diretamente da tecnologia aplicada no chão de fábrica e na ponta do serviço.
A engenharia da sobrevivência no chão de fábrica
Logo nas primeiras fileiras de maquinários, a conversa com os expositores deixou claro que o perfil de investimento mudou. No estande da StarkBauen, chamou a atenção uma nova envasadora linear de latas operando em alta precisão. O maquinário traduz o momento atual: estruturas ágeis, focadas em volumes menores e alta diversificação de rótulos. A era das plantas industriais engessadas e hiperfaturadas deu lugar à flexibilidade operacional.
Essa obsessão por custos ganha contornos ainda mais sérios quando o assunto são os insumos básicos. Na NKA Schiaveto, o foco visual do estande estava nas soluções de automação para redução drástica do uso de água e vapor. Em tempos de margens apertadas e cobrança por sustentabilidade, otimizar o rendimento da matéria-prima por litro produzido virou o divisor de águas entre o lucro e o prejuízo.
Biotecnologia e a previsibilidade do líquido
Avançando em direção ao setor de insumos e biotecnologia, o pavilhão parecia um laboratório a céu aberto. No espaço da Globalfood, o movimento constante de mestres cervejeiros buscava novidades em enzimas e leveduras de alta performance. O interesse técnico do público mostra que o mercado cansou do improviso; o produtor de hoje quer previsibilidade química total.
Essa ciência de ponta foi o coração do encerramento do congresso técnico (CBCTEC). Ouvir o pesquisador belga Tin Kocijan detalhar a microbiologia do envelhecimento em barris foi um dos pontos altos da cobertura. Ele demonstrou na lousa como a inoculação exata de microrganismos como Acetobacter e Brettanomyces remove o “fator sorte” da produção de cervejas ácidas (sour beers), garantindo que um produto complexo de guarda mantenha o mesmo perfil de sabor lote após lote.
A tecnologia que o consumidor enxerga
Mas a feira não se limitou ao que acontece dentro dos tanques de inox. Na outra extremidade do pavilhão, as novidades focavam na experiência final do cliente no bar ou em casa. O estande da Memo atraiu olhares com suas torres de chope automatizadas por aplicativo. Ver o controle de fluxo e o serviço serem comandados diretamente pela tela de um celular mostra que a automação residencial e comercial veio para ficar.
Essa experiência do serviço perfeito esbarra em um gargalo físico que poucos comentam: o vidro. No estande da Ruvolo, o debate foi sobre o design aliado à durabilidade mecânica. O desafio atual do varejo é encontrar copos e taças que entreguem a elegância exigida pelo consumidor atual, mas que resistam ao giro pesado dos estabelecimentos sem quebrar o fluxo de caixa com reposições constantes.
O veredito do pavilhão
Deixar o São Paulo Expo após três dias de imersão traz uma certeza: o mercado de bebidas se profissionalizou ao extremo. Da antropologia cultural debatida nos painéis da Abracerva à precisão das leveduras secas apresentadas pela Fermentis, o setor provou que sabe se reinventar. A transição anunciada para o formato global “Brasil Brau & Beverage” em 2028 é apenas o carimbo oficial em uma mudança que nós, que estávamos no chão de feira, já vimos acontecer na prática.
