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A descarbonização também acontece nas moléculas

Indústria

O carbono não precisa ser o fim da história: como a indústria química está transformando CO₂ em matéria-prima

Muito além do armazenamento de carbono

Por

Cristina Banaskiwitz

·

29 de julho de 2026

·

3 min

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Durante décadas, a estratégia global de descarbonização foi construída sobre um princípio relativamente simples: emitir menos carbono.

Esse objetivo continua sendo prioritário. Mas uma nova abordagem começa a ganhar espaço na indústria química. Em vez de enxergar o CO₂ apenas como um resíduo a ser eliminado, empresas passam a tratá-lo como uma matéria-prima capaz de retornar aos processos produtivos.

É uma mudança conceitual importante. O carbono deixa de representar apenas uma emissão e passa a ser um recurso que pode permanecer em circulação por mais tempo, reduzindo a necessidade de novas matérias-primas fósseis.

Essa lógica está no centro das tecnologias conhecidas como Carbon Capture and Utilization (CCU), que capturam dióxido de carbono e o transformam em novos produtos químicos, combustíveis e materiais industriais.

Muito além do armazenamento de carbono

Durante anos, grande parte dos investimentos concentrou-se em tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCS), cujo objetivo é impedir que o CO₂ seja liberado na atmosfera.

O CCU amplia essa estratégia. Em vez de armazenar permanentemente o carbono, ele o reintegra à economia como matéria-prima para novos processos industriais.

Na indústria petroquímica, essa abordagem abre caminho para uma nova geração de insumos produzidos a partir de carbono reciclado, reduzindo a dependência de recursos fósseis sem exigir mudanças profundas nas aplicações finais.

É exatamente esse conceito que orienta a estratégia “Keeping Carbon in the Loop” (“Mantendo o Carbono no Ciclo”), adotada pela Braskem para ampliar a circularidade do carbono em seus processos produtivos.

Da atmosfera para a indústria

Um dos exemplos mais representativos dessa estratégia é a parceria entre a Braskem BV e a empresa norueguesa Norsk e-Fuel.

O projeto utiliza eletricidade proveniente de fontes renováveis, água e dióxido de carbono capturado para produzir e-Nafta, uma matéria-prima sintética que poderá substituir parte da nafta de origem fóssil utilizada na indústria petroquímica.

O plano industrial prevê que, até 2032, a Norsk e-Fuel opere pelo menos três plantas industriais, com capacidade conjunta superior a 200 mil toneladas anuais de e-Fuels.

Desse volume, aproximadamente 25% da produção — cerca de 50 mil toneladas de e-Nafta por ano — será destinada à Braskem e seus parceiros, permitindo a fabricação de plásticos circulares, como o polipropileno, a partir de carbono previamente capturado.

Mais do que um novo insumo, trata-se de uma nova lógica para a cadeia petroquímica.

O carbono deixa de seguir um fluxo linear — extração, uso e emissão — para integrar um ciclo em que pode ser reaproveitado sucessivamente como matéria-prima.

A descarbonização também acontece nas moléculas

Embora tecnologias como eletrificação industrial e energia renovável recebam maior atenção, boa parte das emissões associadas aos produtos industriais está concentrada na origem das matérias-primas.

É justamente nesse ponto que soluções baseadas em carbono reciclado ganham relevância.

Ao incorporar insumos produzidos a partir de CO₂ capturado ou de matérias-primas renováveis, fabricantes de embalagens, componentes automotivos, bens de consumo e produtos químicos podem reduzir a intensidade de carbono de suas cadeias sem alterar o desempenho técnico dos materiais.

Para muitas empresas, especialmente aquelas comprometidas com metas de redução das emissões de Escopo 3, essa substituição representa uma oportunidade concreta de avançar na descarbonização sem necessidade de redesenhar produtos ou processos produtivos.

Transparência como parte da inovação

O avanço dessas tecnologias também depende da capacidade de comprovar a origem do carbono incorporado aos materiais.

Por isso, sistemas de certificação e modelos de Mass Balance, auditados por organismos independentes como o ISCC PLUS, desempenham papel fundamental ao assegurar rastreabilidade e credibilidade para matérias-primas renováveis e recicladas.

A inovação, nesse contexto, não está apenas na molécula. Está também na capacidade de demonstrar, de forma transparente, a trajetória desse carbono ao longo de toda a cadeia de valor.

Um novo capítulo para a indústria química

A descarbonização da indústria continuará exigindo eficiência energética, eletrificação e ampliação das fontes renováveis.

Mas o reaproveitamento do carbono abre uma nova frente tecnológica. Em vez de enxergar o CO₂ apenas como um passivo ambiental, a indústria começa a incorporá-lo como recurso estratégico para a produção de novos materiais.

É uma mudança que redefine o papel da química na economia circular. Mais do que reduzir emissões, trata-se de manter o carbono em uso pelo maior tempo possível, criando cadeias produtivas mais eficientes, resilientes e alinhadas às metas globais de neutralidade climática.

Autora
Cristina Banaskiwitz
Diretora & Publisher da Pack. Cobre o mercado de embalagens brasileiro há mais de uma década, com foco em alimentos, bebidas e tecnologia industrial.

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