Grandes fabricantes passam a investir na forma como seus ingredientes são cultivados. O movimento envolve segurança de abastecimento, emissões e, cada vez mais, o que se pode comunicar na embalagem
Por muito tempo, a responsabilidade da indústria de alimentos sobre seus ingredientes terminava no contrato com o fornecedor. Isso está mudando. Fabricantes de grande porte passaram a atuar diretamente no campo, incentivando práticas agrícolas que recuperam o solo, em vez de apenas explorá-lo. É o que se convencionou chamar de agricultura regenerativa.
O que é agricultura regenerativa
Não existe uma definição única e oficial do termo. Em geral, ele reúne um conjunto de práticas voltadas a melhorar a saúde do solo, aumentar a biodiversidade e tornar os sistemas produtivos mais resilientes. Entre as mais comuns estão:
- Plantio direto: o solo não é revolvido, e a palha da safra anterior permanece como cobertura, reduzindo a erosão e a perda de umidade.
- Rotação de culturas: a alternância de espécies, como milho, soja e trigo, quebra ciclos de pragas e doenças e equilibra o uso de nutrientes.
- Culturas de cobertura: plantas cultivadas entre as safras protegem o solo e devolvem matéria orgânica.
- Integração com a pecuária: a combinação de lavoura e criação animal diversifica a produção e contribui para a fertilidade do solo.
O objetivo comum é aumentar a matéria orgânica do solo. Um solo mais rico retém mais água, sofre menos com a erosão e armazena carbono.
O Brasil já tem experiência no tema
Várias dessas práticas são conhecidas da agricultura brasileira. O plantio direto se difundiu amplamente no país nas últimas décadas, e sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta são pesquisados e incentivados há anos. O que muda agora é o interesse da indústria em conectar essas práticas à sua cadeia de fornecimento, com metas e acompanhamento.
Por que a indústria entra no campo
Há três motivos principais para esse movimento:
- Segurança de abastecimento: solos degradados produzem menos e são mais vulneráveis a secas e chuvas extremas. Garantir a saúde do solo é garantir o fornecimento de matéria-prima no longo prazo.
- Emissões da cadeia: em empresas de alimentos, boa parte da pegada de carbono costuma estar fora das fábricas, na produção dos ingredientes. Atuar no campo é uma das formas de reduzir essas emissões indiretas.
- Exigências do mercado: varejistas, investidores e consumidores cobram cada vez mais transparência sobre a origem do que é vendido.
O pano de fundo é preocupante. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) alerta para o avanço da degradação dos solos agrícolas no mundo, com projeções de que até 90% deles possam estar degradados em 2050 se as práticas atuais não mudarem.
Um exemplo em escala
O Grupo Bimbo, maior empresa de panificação do mundo, ilustra a dimensão que o tema ganhou. Segundo a companhia, as áreas cultivadas com práticas regenerativas em sua cadeia passaram de cerca de 290 mil hectares em 2024 para mais de 500 mil hectares ao fim de 2025, um crescimento de 73%. Mais de 570 produtores foram capacitados, com apoio de parceiros como o Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo (CIMMYT) e moinhos fornecedores.
O programa está presente no Canadá, nos Estados Unidos, no Brasil, no Reino Unido e no México. No Brasil, um projeto piloto evoluiu em 2025 para uma implementação formal, envolvendo a equipe local, um fornecedor estratégico e produtores da região. A meta da empresa é que, até 2050, todos os seus ingredientes-chave venham de áreas cultivadas nesse modelo.
E na embalagem?
Para a indústria de embalagens e para os profissionais de marca, o tema traz uma questão prática: como comunicar esse esforço ao consumidor sem cair no greenwashing.
Como não há uma definição única de agricultura regenerativa, uma frase genérica no rótulo pode gerar desconfiança ou até questionamentos. Alguns cuidados ajudam:
- Ser específico: dizer quais práticas foram adotadas e em qual proporção dos ingredientes, em vez de usar o termo de forma ampla.
- Ter como comprovar: manter dados e relatórios que sustentem cada afirmação.
- Usar referências reconhecidas: selos e certificações específicas para agricultura regenerativa começam a ganhar espaço e dão mais credibilidade ao que é comunicado.
O solo virou assunto de estratégia industrial. E, como em outras frentes da sustentabilidade, o que vale na embalagem é o que se consegue provar no campo.
Com informações do Grupo Bimbo e da FAO.
