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Da lixeira inteligente à guitarra reciclada: economia circular ganha espaço nos projetos da Mauá

Triagem, reciclagem e logística reversa

16 de outubro de 2026

·

2 min

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Da lixeira inteligente à guitarra reciclada: economia circular ganha espaço nos projetos da Mauá

Na Eureka 2026, estudantes de engenharia, design e administração do Instituto Mauá de Tecnologia apresentam projetos que vão da triagem automatizada de recicláveis a biomateriais feitos de resíduos agroindustriais

Uma lixeira que reconhece o material descartado, uma guitarra impressa em 3D com plástico reciclado, um biomaterial cultivado por fungos a partir de efluentes da agroindústria e pads demaquilantes feitos com bagaço de cana. Esses são alguns dos projetos da Eureka 2026, mostra anual de trabalhos de conclusão de curso do Instituto Mauá de Tecnologia, em São Caetano do Sul (SP), que tem a economia circular como um de seus eixos.

Os trabalhos envolvem estudantes de Engenharia de Controle e Automação, Engenharia Civil, Engenharia de Produção, Engenharia Química, Design e Administração, e cobrem diferentes etapas do ciclo dos materiais: identificação e separação de resíduos, reaproveitamento de matérias-primas, desenvolvimento de produtos e prolongamento da vida útil de equipamentos. Para o setor de embalagens, que lida diretamente com reciclagem, logística reversa e busca por materiais alternativos, o conjunto mostra como esses temas já fazem parte da formação de novos profissionais.

Triagem, reciclagem e logística reversa

Um dos gargalos da reciclagem está no início da cadeia: a separação correta dos materiais. Em Engenharia de Controle e Automação, o projeto EcoSort AI combina câmera, processamento embarcado e visão computacional para identificar o material no momento em que ele é apresentado à lixeira. A classificação acontece no próprio equipamento, sem depender de conexão permanente com a internet. Os registros seguem para uma plataforma em nuvem, onde as classificações podem ser revisadas, e essas correções ajudam a treinar o sistema.

O plástico reciclado ganha outro destino no curso de Design. Um grupo desenvolveu uma guitarra elétrica modular impressa em 3D: a estrutura que garante a resistência mecânica usa uma mistura de PLA virgem e reciclado, enquanto os corpos intercambiáveis são feitos só com material reciclado. No total, cerca de 70% do instrumento é de origem reciclada, segundo os estudantes. O mesmo produto foi analisado em Administração, onde outro grupo elaborou um plano de negócios para uma marca de guitarras sustentáveis produzidas por manufatura aditiva.

Na Engenharia de Produção, o foco foi a capacidade operacional da Green Mining, empresa de logística reversa. Com previsão de demanda, planejamento agregado de capacidade e simulação computacional, os estudantes projetaram a operação até 2030 para identificar quais recursos podem se tornar gargalos com o aumento do volume de materiais recebidos, antecipando a necessidade de investimentos.

Resíduos agroindustriais como matéria-prima

A maior parte dos projetos vem da Engenharia Química e usa sobras da agroindústria como ponto de partida. Um deles cultiva o fungo Rhizopus delemar em efluentes como melaço de soja e manipueira, o líquido residual do processamento da mandioca. O fungo se alimenta da matéria orgânica e forma uma membrana de micélio, que depois é tratada e prensada. Os estudantes compararam diferentes concentrações e composições dos substratos para entender como as condições de cultivo afetam o crescimento e as propriedades do material. Biomateriais de micélio estão entre as alternativas estudadas pela indústria para substituir materiais de origem fóssil, inclusive em embalagens.

No projeto CAULIS, o bagaço de cana doado por vendedores de caldo de cana passa por seleção, lavagem, secagem e tratamentos até se transformar no substrato de pads demaquilantes. O grupo também desenvolveu a formulação que umedece os pads e mudou o formato do produto durante os testes, ao perceber que o material funcionava melhor em uma geometria menor.

Outros trabalhos seguem a mesma lógica:

  • Caju: pedúnculos que seriam descartados, fornecidos pela organização Amigos do Bem, viram extratos para uma manteiga hidratante vegana, com avaliação do potencial antioxidante e antimicrobiano.
  • Castanha-de-caju: óleo e casca, resíduos do processamento, são usados em hidratante corporal, lip balm e esfoliante, com testes de estabilidade.
  • Abacate: o óleo do caroço entra na formulação de uma cera que protege as patas de cães e gatos de superfícies quentes.
  • Melancia: o óleo das sementes é base de uma emulsão hidratante, com comparação entre métodos de extração.
  • Cítricos: no CitrusGrill, o D-limoneno extraído por micro-ondas de cascas de frutas cítricas dá origem a um desengordurante de base renovável.

Do pavimento ao eletrônico reparável

Na Engenharia Civil, estudantes avaliam o uso de agregado siderúrgico, coproduto da indústria do aço, na camada de base de pavimentos. O material é misturado a solo e brita e passa por ensaios de laboratório que medem seu comportamento mecânico. A ideia é verificar se ele pode substituir parte dos agregados naturais e, ao mesmo tempo, ganhar uma destinação útil.

Já em Design, uma caixa de som Bluetooth modular foi criada para discutir reparabilidade. O produto tem um módulo central e dois laterais, que funcionam juntos ou separados. A construção facilita a desmontagem e a troca de partes específicas, para que um defeito pontual não obrigue o descarte do equipamento inteiro.

Formação conectada aos problemas reais

Além dos resultados técnicos, os projetos mostram um modelo de ensino que coloca os estudantes diante de questões concretas da indústria. Vários trabalhos partem de parcerias com empresas e organizações, como a Green Mining e a Amigos do Bem, ou de resíduos reais fornecidos por comerciantes. E um mesmo tema pode ser trabalhado por cursos diferentes, como a guitarra reciclada, desenvolvida em Design e transformada em plano de negócios em Administração.

“A proposta é facilitar a experiência do visitante e mostrar como diferentes áreas podem contribuir para uma mesma questão. Hoje, os projetos combinam conhecimentos técnicos, econômicos, ambientais e humanos para responder a desafios cada vez mais complexos”, afirma Alessandra Dutra Coelho, professora responsável pela organização da Eureka.

O rigor científico também aparece na forma como os resultados são apresentados. Os estudantes do projeto CAULIS, por exemplo, ressaltam que a pesquisa ainda avalia a viabilidade técnica dos pads de bagaço e não afirma que o produto tenha menor impacto ambiental do que as alternativas do mercado. Em um momento em que alegações ambientais sem comprovação estão sob crescente escrutínio, é uma postura que a indústria também faria bem em adotar.

Autora
Cristina Banaskiwitz
Diretora & Publisher da Pack. Cobre o mercado de embalagens brasileiro há mais de uma década, com foco em alimentos, bebidas e tecnologia industrial.

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