Conectados com quem decide o setor


HOME /

Indústria

Logística reversa: quando o desafio deixa de ser cumprir a meta e passa a ser provar o resultado

Com a criação do Sisrev-BR, o Brasil avança na centralização dos dados de logística reversa.

8 de outubro de 2026

·

3 min

Compartilhar

Logística reversa: quando o desafio deixa de ser cumprir a meta e passa a ser provar o resultado

Com a criação do Sisrev-BR, o Brasil avança na centralização dos dados de logística reversa. Mas a confiabilidade dos números dependerá da capacidade de verificar o que efetivamente foi coletado, tratado e reciclado.

A logística reversa brasileira está entrando em uma nova fase. A criação do Sisrev-BR, por meio da Portaria GM/MMA nº 1.778/2026, estabelece uma plataforma nacional para centralizar o reporte e o monitoramento dos resultados dos sistemas de logística reversa e prevê a integração entre os verificadores.

A mudança responde a uma necessidade que vai além da digitalização dos processos: dar maior rastreabilidade aos números que demonstram o cumprimento das metas ambientais.

E isso traz uma pergunta incômoda, mas necessária:

como saber se aquilo que foi declarado como reciclado realmente foi coletado, tratado e reinserido na cadeia?

Reciclagem não termina na declaração

O Brasil produz cerca de 2,4 milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos por ano, segundo o Global E-waste Monitor 2024, da ONU. O volume coloca o país entre os maiores geradores desse tipo de resíduo nas Américas.

Dentro desse universo está a chamada linha branca — geladeiras, freezers, fogões, máquinas de lavar e micro-ondas.

Esses equipamentos carregam uma oportunidade importante de mineração urbana. Aço, cobre, alumínio e diferentes tipos de plástico podem retornar à cadeia produtiva, reduzindo a necessidade de novas matérias-primas.

Mas transformar um equipamento descartado em matéria-prima exige mais do que simplesmente encaminhá-lo para uma recicladora.

É preciso saber onde ele foi recebido, qual tratamento recebeu, quais materiais foram recuperados e qual foi o destino desses materiais.

No caso dos refrigeradores, por exemplo, existe ainda uma questão ambiental específica: antes da desmontagem e trituração, é necessário retirar adequadamente o fluido refrigerante e tratar os gases presentes na espuma isolante. Alguns desses gases têm impacto sobre a camada de ozônio e não podem simplesmente ser liberados durante o processo.

Ou seja: reciclar não é apenas desmontar. E comprovar a reciclagem não é apenas apresentar uma nota fiscal.

O mercado já movimenta grandes volumes

A cadeia de eletroeletrônicos e eletrodomésticos vem estruturando sistemas de coleta e tratamento.

A ABREE informa ter coletado e tratado 230.576 toneladas entre 2021 e 2025, reunindo 58 empresas e 207 marcas, com mais de 3,4 mil pontos de recebimento distribuídos por 1,3 mil municípios.

Os números mostram que existe uma infraestrutura em expansão.

Ao mesmo tempo, as metas regulatórias também avançam. O Decreto nº 10.240/2020 estabeleceu metas progressivas de coleta para eletroeletrônicos e eletrodomésticos, aumentando a pressão para que empresas e sistemas comprovem seus resultados.

E quanto maior a meta, maior também a importância de mecanismos capazes de verificar esses resultados.

Quando o número vira o ponto crítico

A experiência de outras cadeias mostra por que essa discussão merece atenção.

Em 2024, uma investigação do Ministério Público de Mato Grosso do Sul e do Gaeco, denominada Operação Crédito de Papel, apurou suspeitas relacionadas à emissão de documentos fiscais que teriam sido utilizados para comprovar volumes de reciclagem que, segundo a investigação, não teriam sido efetivamente movimentados.

Em 2026, a Abividro também levou ao Ministério Público Federal questionamentos relacionados à geração de créditos de reciclagem. As empresas citadas negaram irregularidades ou não se manifestaram, conforme o caso.

Não cabe transformar esses episódios em conclusão sobre toda uma cadeia.

O que eles mostram, porém, é outra coisa: quando existe uma obrigação vinculada a metas e créditos, a qualidade da verificação passa a ser tão importante quanto a própria existência da meta.

Quem verifica quem?

A legislação brasileira já prevê a atuação dos chamados verificadores de resultados.

Na prática, são organizações responsáveis por conferir as evidências que sustentam os resultados declarados nos sistemas de logística reversa. Entre os elementos analisados estão documentos fiscais e outras informações que permitem verificar a consistência dos volumes apresentados.

A independência é um ponto central.

Se a mesma estrutura responsável por declarar o resultado também tivesse o controle absoluto sobre sua validação, o sistema perderia parte de sua credibilidade.

É justamente por isso que a verificação independente ganha importância à medida que o mercado amadurece.

Fernando Bernardes, PhD em Engenharia Ambiental e diretor de operações da Central de Custódia da Logística Reversa, chama atenção para esse aspecto.

Para ele, a evolução dos sistemas de logística reversa exige mecanismos capazes de assegurar isenção, independência, consistência e adicionalidade na comprovação dos resultados.

O Sisrev-BR pode mudar o jogo

A criação do Sisrev-BR adiciona uma nova camada a esse processo.

Ao centralizar informações e integrar dados dos verificadores, o sistema pode contribuir para reduzir a fragmentação existente e aumentar a capacidade de acompanhamento dos resultados.

Mas existe uma diferença importante entre ter mais dados e ter dados confiáveis.

Uma plataforma pode reunir milhões de registros. Isso não significa, por si só, que todos os registros representem operações efetivamente realizadas.

É aí que entram mecanismos de auditoria, cruzamento de informações e análise de inconsistências.

Tecnologias como rastreamento digital, automação e inteligência artificial podem ajudar a identificar padrões fora do esperado, cruzar grandes volumes de dados e apontar situações que mereçam investigação.

Mas tecnologia não elimina a necessidade de governança.

Um algoritmo pode encontrar uma inconsistência. Quem determina o que ela significa e como deve ser investigada continua sendo uma questão humana e institucional.

O aprendizado para a indústria

A discussão interessa não apenas aos gestores de resíduos ou às entidades de logística reversa.

Para a indústria, o avanço da rastreabilidade significa que comprovar a responsabilidade pós-consumo tende a se tornar cada vez mais parte da gestão empresarial.

Não basta saber quanto foi colocado no mercado.

Será necessário acompanhar o que acontece depois.

Isso envolve dados, fornecedores, operadores, documentos fiscais, pontos de coleta, recicladores, materiais recuperados e destinos finais.

No caso da linha branca, o desafio é ainda mais interessante porque o produto contém materiais de alto valor econômico e componentes que exigem tratamento adequado.

A logística reversa deixa, portanto, de ser apenas uma obrigação ambiental.

Ela passa a fazer parte da gestão de recursos, da eficiência industrial e da própria economia circular.

A pergunta que fica

O Brasil já está construindo uma estrutura mais sofisticada para acompanhar a logística reversa.

Agora vem a parte mais difícil: fazer com que os números tenham credibilidade.

Porque, no fim, uma meta ambiental só tem valor quando o resultado pode ser comprovado.

E talvez essa seja a próxima fronteira da logística reversa brasileira:

não apenas reciclar mais, mas conseguir provar — com dados confiáveis — quanto foi reciclado, como foi reciclado e para onde esse material voltou.

Autora
Cristina Banaskiwitz
Diretora & Publisher da Pack. Cobre o mercado de embalagens brasileiro há mais de uma década, com foco em alimentos, bebidas e tecnologia industrial.

Gostou da matéria? Compartilhe.

Newsletter Pack

A leitura quinzenal do setor de embalagens.

Análises e movimentos do mercado, com curadoria da redação Pack. Direto na sua caixa de entrada.


+80.000

já recebem

Anuncie Aqui!
970 × 250 px
Continue lendo

Mais matérias da editoria


Indústria

Reciclagem não termina na declaração

8 de outubro de 2026

·

3 min