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Quando a embalagem vira tecnologia de conservação

Quando evitar desperdício vale mais que reduzir embalagem

10 de agosto de 2026

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3min

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Da atmosfera modificada ao HPP e aos materiais ativos, a ciência está aproximando embalagem, processamento e segurança para aumentar a vida útil dos alimentos — e reduzir desperdícios.

Durante muito tempo, a embalagem foi tratada como a última etapa da produção de alimentos: o produto está pronto, então é hora de colocá-lo dentro de uma embalagem.

A ciência está mudando essa lógica.

Hoje, embalagem, processo de conservação, materiais, atmosfera interna, barreiras e condições de armazenamento começam a ser projetados como partes de um mesmo sistema. O objetivo não é apenas proteger o alimento durante o transporte ou aumentar sua atratividade na gôndola. É controlar o ambiente em que o alimento permanece vivo, estável e seguro pelo maior tempo possível.

Essa mudança tem uma consequência importante para a indústria: a discussão sobre sustentabilidade da embalagem não pode ser dissociada daquilo que ela protege.

Quando evitar desperdício vale mais que reduzir embalagem

Um dos estudos mais interessantes nessa área é o projeto STOP Waste – SAVE Food, desenvolvido na Universidade de Recursos Naturais e Ciências da Vida de Viena (BOKU), em parceria com instituições como denkstatt e OFI e empresas da cadeia de alimentos e embalagens.

O projeto analisou diferentes cenários de produção, embalagem, distribuição e armazenamento utilizando avaliações de ciclo de vida, cálculo de pegada de carbono e análises de custo-benefício.

A conclusão desafia uma ideia bastante difundida: reduzir a quantidade de embalagem nem sempre significa reduzir o impacto ambiental.

Segundo o guia produzido pelo projeto, quando a embalagem evita a perda do alimento, o benefício ambiental associado à prevenção do desperdício pode ser cinco a dez vezes maior que o impacto ambiental da própria embalagem. O efeito é particularmente relevante para alimentos cuja produção consome muitos recursos, como carne e queijo.

A conclusão, portanto, não é “quanto mais embalagem, melhor”.

É justamente o contrário.

A melhor embalagem é aquela que entrega a proteção necessária usando o mínimo de recursos possível e mantendo a capacidade de preservar o produto.

Essa é uma mudança importante de perspectiva para o desenvolvimento de embalagens.

A atmosfera dentro da embalagem também é tecnologia

A embalagem deixa de ser passiva quando passa a controlar o ambiente ao redor do alimento.

É o princípio da Modified Atmosphere Packaging (MAP), tecnologia que substitui o ar atmosférico dentro da embalagem por uma composição específica de gases, normalmente envolvendo oxigênio, dióxido de carbono e nitrogênio.

A combinação depende do produto.

Carnes, peixes, queijos, frutas, vegetais e refeições prontas possuem necessidades diferentes. O equilíbrio entre composição gasosa, respiração do alimento, permeabilidade do material, temperatura de armazenamento e integridade da selagem determina o comportamento do sistema ao longo do shelf life.

O nitrogênio, por exemplo, é utilizado principalmente como gás inerte e também para ajudar a evitar o colapso da embalagem. Já o CO₂ pode contribuir para inibir o crescimento de determinados microrganismos.

Isso significa que a embalagem precisa ser projetada em função da fisiologia e da química do alimento.

É engenharia de embalagem aplicada à conservação.

E se a conservação acontecer sem calor?

Outra frente de pesquisa está deslocando a discussão para os processos não térmicos.

O High Pressure Processing (HPP) utiliza pressão hidrostática para reduzir microrganismos e ampliar a segurança e a vida útil de alimentos. Em aplicações industriais, são utilizadas pressões que podem chegar a 600 MPa, normalmente durante alguns minutos.

Uma característica particularmente relevante para a indústria de embalagens é que o HPP pode ser aplicado ao alimento já acondicionado, utilizando embalagens flexíveis capazes de suportar o processo.

Pesquisas mostram resultados importantes contra microrganismos como Listeria monocytogenes, embora a eficácia dependa do produto e das condições específicas do tratamento. Em um estudo experimental, por exemplo, diferentes cepas de L. monocytogenes apresentaram redução superior a 5 log após tratamento a 600 MPa por um minuto.

O HPP, portanto, aproxima duas áreas que tradicionalmente eram tratadas separadamente:

processamento de alimentos + embalagem.

PEF: outra rota para reduzir o uso de calor

O Pulsed Electric Field (PEF) segue outra lógica.

Em vez de aplicar calor intenso, o processo utiliza pulsos elétricos de alta intensidade para provocar alterações nas membranas celulares dos microrganismos.

A tecnologia é especialmente estudada para alimentos líquidos e semilíquidos, como sucos, leite e produtos líquidos à base de ovos. Pesquisas apontam potencial para reduzir microrganismos e, em determinadas aplicações, preservar melhor características sensoriais e compostos bioativos sensíveis ao calor.

Em estudo com suco de maçã, por exemplo, o tratamento por PEF não alterou significativamente o conteúdo de vitamina C e polifenóis durante o período analisado sob refrigeração, além de reduzir microrganismos deteriorantes.

Para a indústria de bebidas, isso abre uma discussão interessante: até onde processamento, embalagem e shelf life podem ser redesenhados conjuntamente para preservar qualidade sem depender exclusivamente de tratamentos térmicos tradicionais?

O material também precisa responder

Quanto mais sofisticada fica a tecnologia de conservação, maior é a responsabilidade sobre o material que entra em contato com o alimento.

É aqui que entram os estudos de migração, especialmente diante do crescimento do uso de materiais reciclados e novas estruturas de embalagem.

A FDA destaca que uma das principais questões na utilização de plásticos reciclados para contato com alimentos é justamente a possibilidade de contaminantes presentes no material permanecerem no reciclado e migrarem para o alimento.

A EFSA adota a mesma lógica para os materiais de contato com alimentos: substâncias químicas podem migrar do material para o alimento, e a avaliação precisa considerar dados de migração e toxicologia.

No Brasil, a Anvisa também estabelece requisitos específicos para materiais e embalagens destinados ao contato com alimentos. O PET pós-consumo reciclado, por exemplo, está entre as categorias sujeitas a regras específicas de regularização.

A questão se torna ainda mais complexa quando se fala em papel e cartão reciclados. Pesquisas identificam a necessidade de avaliar não apenas propriedades físicas desses materiais, mas também a presença e eventual migração de determinadas substâncias.

A embalagem do futuro será cada vez menos “passiva”

A ciência está apontando para uma embalagem que participa cada vez mais da conservação.

Materiais ativos podem absorver oxigênio ou líquidos e, com isso, contribuir para prolongar a qualidade do produto. Materiais inteligentes podem monitorar condições do alimento ou do ambiente e fornecer informações sobre frescor ou temperatura.

Isso muda também o papel do desenvolvimento de embalagens.

Não basta perguntar:

“Qual material usamos?”

A pergunta passa a ser:

“Qual sistema de proteção o alimento precisa?”

A resposta pode envolver estrutura multicamada, atmosfera modificada, absorvedores, sensores, barreiras específicas, processamento não térmico, refrigeração e uma combinação de diferentes tecnologias.

O próximo desafio é integrar tudo

A indústria de alimentos está diante de uma equação cada vez mais complexa.

É preciso aumentar a vida útil, garantir segurança, preservar qualidade sensorial e nutricional, reduzir desperdícios, atender às exigências regulatórias e, ao mesmo tempo, reduzir o impacto ambiental da embalagem.

Não existe uma tecnologia única capaz de resolver essa equação.

O que emerge das pesquisas é outra tendência: a integração entre alimento, processo e embalagem desde o início do projeto.

O STOP Waste – SAVE Food chegou a uma conclusão particularmente relevante nesse sentido: avaliações técnicas, ambientais e econômicas precisam ser feitas de maneira integrada para identificar soluções realmente sustentáveis.

Talvez esse seja o verdadeiro salto tecnológico da embalagem.

Ela deixa de ser apenas o recipiente que acompanha o alimento.

Passa a fazer parte da tecnologia que mantém esse alimento vivo, seguro e consumível por mais tempo.

E, em um mundo que ainda desperdiça uma parcela enorme do que produz, essa função pode ser tão importante quanto a própria embalagem ser reciclável.

Curadoria | Revista PACK

Fontes: BOKU/STOP Waste – SAVE Food, FDA, EFSA, Anvisa e literatura científica revisada por pares.

Autora
Cristina Banaskiwitz
Diretora & Publisher da Pack. Cobre o mercado de embalagens brasileiro há mais de uma década, com foco em alimentos, bebidas e tecnologia industrial.

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