O crescimento da geração de resíduos urbanos e a pressão por metas mais ambiciosas de economia circular estão mudando a forma como o setor de reciclagem enxerga um dos fluxos mais complexos da gestão de resíduos: a fração residual indiferenciada.
Segundo o Grupo STADLER, empresa alemã especializada no desenvolvimento de plantas de triagem e reciclagem, esse material — tradicionalmente destinado a aterros sanitários ou à recuperação energética — concentra um potencial significativo para recuperação de matérias-primas que ainda escapam dos sistemas convencionais de coleta seletiva.
Dados do relatório Global Waste Management Outlook 2024, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), indicam que a geração mundial de resíduos sólidos urbanos deverá crescer de 2,1 bilhões de toneladas em 2023 para 3,8 bilhões de toneladas até 2050, ampliando a necessidade de soluções capazes de recuperar recursos antes considerados perdidos.
Para Sabine Schlögl, Engenheira de Vendas Técnicas da STADLER Anlagenbau GmbH, a mudança representa uma transformação estrutural na gestão de resíduos.
“O material deixou de ser simplesmente um problema a resolver e passou a ser um potencial que deve ser liberado”, afirma a executiva.
Segundo a especialista, tecnologias como triagem óptica, sensores de alta resolução, automação e inteligência artificial vêm ampliando significativamente a capacidade de recuperar metais, plásticos, papel e outros materiais recicláveis presentes no lixo doméstico.
A STADLER também destaca que, mesmo em países com sistemas consolidados de coleta seletiva, como a Alemanha, uma parcela expressiva de materiais recicláveis ainda é descartada no resíduo comum.
Na avaliação de André Galuppo, diretor da STADLER Brasil, cada mercado exige soluções específicas.
“Não existe lógica de copiar e colar para instalações de tratamento de resíduos. Cada projeto precisa ser desenvolvido considerando a realidade local, a composição dos resíduos e os objetivos de recuperação de materiais”, explica.
A empresa cita projetos desenvolvidos na Suécia e na Espanha como exemplos de plantas desenhadas para maximizar a recuperação de recursos por meio da combinação entre engenharia, automação e flexibilidade operacional.
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Durante muitos anos, a indústria concentrou seus esforços em ampliar a coleta seletiva.
Mas começa a ficar claro que, sozinha, ela não será suficiente para atingir as metas de circularidade que governos e empresas vêm assumindo. O desafio agora passa a ser recuperar valor justamente daquilo que antes era considerado rejeito.
Esse movimento amplia o papel da engenharia de triagem e cria novas oportunidades para equipamentos, sensores, inteligência artificial e sistemas capazes de identificar materiais recicláveis em fluxos cada vez mais complexos.
Para a indústria de embalagens, a discussão também é estratégica. Quanto maior a capacidade de recuperar materiais presentes no lixo comum, maior tende a ser a disponibilidade de matérias-primas recicladas de qualidade para novos produtos, fortalecendo toda a cadeia da economia circular.
A reciclagem do futuro dependerá não apenas de consumidores que separam corretamente seus resíduos, mas também de tecnologias capazes de recuperar aquilo que ainda escapa da coleta seletiva.
